quinta-feira, 3 de abril de 2014

FIRMINA MARIA DA CONCEIÇÃO, “CABOCLA”: COITEIRA DE LAMPIÃO AINDA VIVE EM PAULO AFONSO AOS 109 ANOS DE IDADE.



FIRMINA MARIA DA CONCEIÇÃO, “CABOCLA”: COITEIRA DE LAMPIÃO AINDA VIVE EM PAULO AFONSO AOS 109 ANOS DE IDADE.

    Conheci Cabocla em dezembro de 1999, ela foi uma das minhas grandes descobertas para falar da passagem de Lampião por Paulo Afonso.  Pude entender através de Cabocla os pontos percorridos, os coitos visitados, alguns costumes, detalhes de cangaceiros, gostos, estratégias e conhecer um pouco da rede de proteção para a sobrevivência do cangaço no que abrange a região de Paulo Afonso e o Raso da Catarina.
    Firmina Maria da Conceição nasceu em 1905, no povoado “POÇOS”, uma das fazendas que se situava às margens do Raso da Catarina e foi incluída por Lampião nos seus trajetos como rota secreta e segura, favorecendo sua passagem em direção aos povoados Malhada da Caiçara, São José, Santo Antônio, Várzea, Riacho e todo o estado Sergipano.
O primeiro filho de Firmina acabara de nascer no meio daquele mundo inóspito e primitivo, tendo por testemunha apenas a população resumida de cinco famílias simples. Presente naquele momento de perpetuação da vida estava o sogro Faustino, dona Clara, Batista, Maria de Zeca e Zé Antônio. Cabocla completou quinze dias de resguardo e como de costume acordou cedo e foi fazer a visita matinal na casa da amiga Clara. O que aquela manhã havia lhe reservado de surpresa a acompanharia pelo resto da vida. Na sala da residência de dona Clara, Cabocla parou extasiada diante do que seus olhos contemplaram. Muitas vezes ouvira falar de Lampião, porém, jamais imaginaria ficar diante daquela figura real. Uma voz que mais parecia o som de um trovão quebrou o silêncio que se abatera naquele cubículo abarrotado de cangaceiros:
-   Tá cum medo?
Diante de toda expectativa a resposta saiu:
-   Não!
-   Você sabe cunziar?
-   Sei!
Com este pequeno diálogo começaria uma grande amizade entre Cabocla e Lampião. Neste dia Cabocla preparou um verdadeiro banquete para os cangaceiros.
Os Poços passaria a ser um dos principais esconderijos do Rei do Cangaço. Os coitos que cercavam os Poços e foram utilizados pelos cangaceiros onde permaneciam por dias e dias arranchados, foram: Saco da Palha, Sítio do Sabino, Malhada Bonita, Quixabeira e Serrotinho.  
No princípio Cabocla não contou aos pais do encontro que tivera com Lampião.
Como as visitas de Lampião foram ficando muito freqüentes Cabocla teve que pedir ajuda a amiga Lúcia de Sabino para ajudá-la a cozinhar. Depois Lúcia se encarregou da cozinha e Cabocla da lavagem das roupas, uma árdua tarefa, tendo em vista que as roupas eram lavadas na casa dos pais, no povoado São José e eram escondidas por causa do forte cheiro que ficava, pela quantidade de perfume que os cangaceiros usavam. Cabocla tinha que adentrar alguns metros no mato temendo ser descoberta pelas volantes policiais. A lavagem às vezes era feita durante a noite, tornando a tarefa ainda mais penosa. Sem contar que o sabão era fabricado pela própria lavadeira em um processo milenar: Cabocla queimava a lenha, pegava a cinza e molhava, deixando-a de molho por três dias, depois destilava e misturava com o sebo de boi. A constante fabricação, através da fumaça que se formava, afetou a visão de Cabocla pro resto da vida.
O Sr. Dionísio, do povoado São José, era quem fazia o contato entre Lampião e Cabocla. Assim que o Rei do Cangaço chegava a um dos coitos dos Poços Cabocla era logo avisada.
Dos Poços uma das cunhadas de Cabocla, se apaixonou pelo famoso cangaceiro Mariano Laurindo Granja, um dos homens de confiança de Lampião.
Otília Maria de Jesus era filha do velho Faustino e resolveu acompanhar seu grande amor passando a chamar-se Otília de Mariano. Os Poços jamais seriam o mesmo depois que Otília passou a ser cangaceira, Lampião perdia aí um dos mais famosos coitos da região de Paulo Afonso.
Agora em fevereiro de 2014 fiquei surpreso ao saber que Cabocla ainda estava viva aos 109 anos de idade. Imediatamente lhe fiz uma visita. Por incrível que pareça ela lembrou minha pessoa.
Encontra-se lúcida, recordando fatos, lembrando momentos vividos e perpetuados em sua memória, fatos esses envolvendo as histórias de Lampião e seus diversos grupos de cangaceiros. Firmina Cabocla é um capitulo vivo desses momentos.

João de Sousa Lima
Historiador e escritor

Paulo Afonso, Bahia, madrugada de 25 de fevereiro de 2014.


obs- O JORNAL FOLHA SERTANEJA POSTOU ESSA MATÉRIA TANTO IMPRESSA COMO ON LINE, NA EDIÇÃO 121, MARÇO DE 2014.

Dona Cabocla

Cabocla contando a João sobre sua amizade com Lampião

Cabocla é bem cuidada por suas filhas e netas


terça-feira, 1 de abril de 2014

PESQUISADORES REALIZAM ROTA DO CANGAÇO E ENCONTRAM MATERIAL NA GROTA DO ANGICO

Sg. Lira, João S. Lima, Lourinaldo e Joventino
     Dia 29 de março de 2014 os pesquisadores João de Sousa Lima, Lourinaldo Teles, Joventino e Antonio Lira realizaram uma pesquisa por vários lugares onde Lampião passou.
Dentre os lugares da pesquisa passamos no Alto dos Coelhos, Água Branca,  pra conhecer o local onde morou o cangaceiro Barra Nova e a Capela, na Cachoeirinha,  onde Lampião passou por diversas vezes. No Alto dos Coelhos tivemos um grande apoio de Aldiro (sobrinho de Barra Nova)
Um dos melhores momentos foi vasculhar a Grota do Angico e encontrar uma casca de bala, dois pedaços de chumbadas das balas, um friso e ilhoz dourado. O material foi encontrado dentro da pequena furna e com a ajuda de um detector de metais.  Esse material irá compor o Museu do Povo do Sertão, que será organizado por João de Sousa Lima e o acervo de Lourinaldo teles.
A equipe se reunirá nos próximos dias para mais uma aventura nas trilhas do cangaço.

Capela na Cachoeirinha, próximo a casa de Barra Nova

Teles, Lira, João, Aldiro e Joventino

Açude da Casa de Barra Nova

bala de 1932 encontrada na Grota do Angico

Detector encontra a bala

76 anos depois do combate ainda encontramos uma bala deflagrada


material encontrado na Grota do Angico

segunda-feira, 31 de março de 2014

João de Sousa Lima e Antonio Galdino recebem Moção de Aplausos da Câmara de vereadores de Delmiro Gouveia

Galdino e João de Sousa Lima
     O vereador e professor Edvaldo Nascimento apresentou Moção de Aplausos para os escritores João de Sousa Lima e Antonio Galdino. a Moção foi votada por unanimidade.
      Os dois escritores foram agraciados pela comenda  por seus trabalhos literários Lampião em Paulo Afonso e Angiquinho: 100 Anos de Histórias.
Moção de Aplausos para João de Sousa Lima e Antonio Galdino



Galdino. João e Edvaldo Nascimento

Edvaldo Nascimento e João de Sousa Lima

terça-feira, 25 de março de 2014

O POETA E O CANGACEIRO: LAMPIÃO E PINTO DO MONTEIRO

PINTO DO MONTEIRO


O POETA E O CANGACEIRO.


     Nasci no Pajeú das Flores, em São José do Egito, Pernambuco, berço fecundo de cantadores violeiros.  Meu avô paterno, Serafim Piancó, foi um dos fundadores da vizinha cidade de Itapetim, outro grande foco de repentistas. Convivi muito com cantadores, sendo que em Paulo Afonso, Bahia, a casa do meu primo João Piancó, era um dos lugares mais visitados pelos grandes mestres do repente e da viola. No casarão às margens do Rio São Francisco, vi por diversas vezes o Jó Patriota, Ivanildo Vila Nova, Sebastião da Silva, Sebastião Dias, Manuel Filó, João paraibano, João Furiba, Severino Ferreira, Louro do Pajeú, Zezé Lulu, Heleno Rafael e Gilberto Alves.
     Na década de 70 o meu irmão José de Sousa Lima (Zezé) trouxe o grande poeta João Batista de Siqueira “Cancão”, pra vir a Paulo Afonso conversar com o empreiteiro Pedro Ferreira, dono da SACOL, empresa que prestava serviço a CHESF, pra ver a possibilidade de Pedro financiar a impressão do seu livro “Meu Lugarejo”.  O famoso Cancão ficou hospedado na casa do meu primo João Piancó, na Rua Ribeirão.
     Pedro Ferreira disse que patrocinaria o livro se Cancão fizesse uma poesia sobre Paulo Afonso e Cancão aceitou a condição. No outro dia cedinho Zezé levou Cancão pra ver os trabalhadores em ação dentro das usinas e ai o fenomenal poeta se inspirou e fez a poesia em doze estrofes em decassílabo que começava assim:

LINDA CIDADE FLORIDA
DE DESLUMBRANTE PAISAGEM
EM TEU COMEÇO DE VIDA
RECEBESTE ESTA HOMENAGEM
LARGA PLANÍCIE RELVOSA
SE MISTURANDO NAS ROSAS
COLIBRIS DE VÁRIAS CORES
PRINCESA DO SÃO FRANCISCO
FOSTE CRIADA NO RISCO
DA MÃO DE TEUS BENFEITORES...


    Foi Cancão, sem sombras de dúvidas, um dos gênios da poesia Nordestina. Como lembrança desse momento guardo uma foto e o livro que Cancão presenteou a minha mãe Rosália de Sousa Lima.
     Em uma viagem que fiz à São José do Egito na companhia de João Piancó, na década de 80, fomos depois fazer uma visita ao maior cantador de repente, o velho Pinto do Monteiro. Pinto conversou durante vários minutos com João Piancó e depois o presenteou com uma fotografia onde aparece ele recebendo a “Viola de Ouro”, das mãos do General Humberto Peregrino, no Teatro Santa Rosa, em João Pessoa, Paraíba.
     Tempos depois me lembrei dessa fotografia e perguntei por ela a Maria do Socorro Sousa, viúva de João Piancó e minha prima por parte de minha mãe. Socorro vasculhou o acervo deixado por João e lá estava a fotografia que de pronto me foi presenteada.
     Olhando a velha fotografia em seus detalhes, vi que no verso têm alguns recortes de jornais falando de poesias populares e uma carta colada. Observando mais atentamente a carta tive uma grata surpresa: Pinto do Monteiro Cantou pra Lampião.
     O cangaço é um tema que estudo há tempos e ver essa ligação do maior poeta repentista com o cangaceiro mais afamado do nordeste causou certo espanto. Das histórias que envolvem cantadores com cangaceiros eu só havia ouvido falar que o poeta Cego Aderaldo passou um filme para os cangaceiros, porém é uma história que não consegui comprovar com alguém que realmente tenha vivido esse momento.
     Consegui ler em partes a carta e pra decifrar o restante da missiva recorri ao velho companheiro de jornadas, o professor Edson Barreto, exímio no reconhecimento de caligrafias quando elas fogem da minha interpretação.
A carta está incompleta e com alguns erros de gramática, além de  em alguns pontos complicar o entendimento e embaralhar as palavras. Da forma que a entendemos diz:

EM 1926 PINTO MORAVA EM SERTÂNIA
EM MAIO UM CABRA DE LAMPIÃO O VEIO 
CHAMAR   NA CASA DE
FELINTO  BERNARDO, A NOITE PARA ELE IR  CANTAR COM LAMPIÃO PERTO DO POVOADO ALGODÕES, PINTO FOI AMIGO DE LAMPIÃO NA SERRA VERMELHA E SERRA TALHADA.
AVISOU AO DELEGADO DE ENTÃO VULGO SARGENTO CANELA DE AÇO
QUE PERGUNTOU; VOCÊ VAI?
- UM SIGILO ACIM (sic)
- EU VOU LEVAR UM COM VOCÊ E LEVAR A PÉ PARA VILA DE RIO BRANCO CORTANDO CAMINHO PELA SERRA DO MACHADO PRA ENCURTAR O CAMINHO.
CANELA DE AÇO
SARGENTO ALTO MORENO.

     Assim termina a carta e permanece a dúvida se realmente esse encontro aconteceu. Se a verdade existiu os protagonistas as levaram com eles. Fica em nossos pensamentos  apenas a certeza do registro encontrado  no verso de uma antiga fotografia que mostra em sua imagem o auge do maior poeta repentista de todos os tempos: O VELHO PINTO DO MONTEIRO.
     Duas figuras que deixaram suas histórias gravadas nas memórias do povo nordestino. De um lado um grande poeta da rima e do repente, do outro um homem que decidiu viver pela força da arma, à margem da lei.  Um travava suas batalhas pelas cordas da viola, através das rimas latentes combatendo e vencendo sempre seus oponentes amigos. O outro guerreava nos campos vastos através do fogo e da lâmina do punhal, vencendo e sendo vencido por grandes inimigos. Duas histórias antagônicas: UM CANGACEIRO E UM POETA. Ligados pelo destino, em um momento onde os versos ritmados  da improvisação calou momentaneamente os ecos das armas que ecoavam nas Caatingas do Nordeste Brasileiro.


João de Sousa Lima
Historiador e Escritor
Paulo Afonso, março de 2013
   

LAMPIÃO - WWW.JOAODESOUSALIMA.COM

PINTO - WWW.JOAODESOUSALIMA.COM



quinta-feira, 20 de março de 2014

VIVA O RIO SÃO FRANCISCO

 conhecido como o Rio da Unidade Nacional, o Rio São Francisco tem sofrido ao longo do tempo  e do seu percurso. o desmatamento, transposição, a poluição pelas indústrias e as comunidades que povoam sua margem.
agora chegou a hora de debater sobre sua importância para os ribeirinhos e para o Brasil.


quarta-feira, 19 de março de 2014

LUIZ GONZAGA: OS AUTÓGRAFOS DO REI.



LUIZ GONZAGA: OS AUTÓGRAFOS DO REI.


     Entre as várias peças que coleciono de Luiz Gonzaga, dentre tantos discos, livros e revistas só duas peças são autografadas. Um dos autógrafos é no livro “o Sanfoneiro do Riacho da Brígida”, 2ª edição,  de 1966. O livro me foi presenteado por Adolfo Müller Júnior. Junto a sua carta ele falou:
CUBATÃO, 2 DE AGOSTO DE 2011
CARO AMIGO JOÃO
É COM PRAZER QUE PASSO ÀS SUAS MÃOS O LIVRO
“SANFONEIRO DO RIACHO DA BRÍGIDA” DE SINVAL SÁ, COM AUTÓGRAFO
E DEDICATÓRIA DO GRANDE LUIZ GONZAGA
APRECIE E GUARDE COM CARINHO COMO EU FIZ ATÉ AGORA.
DEUS ABENÇOE VOCÊ E SUA FAMÍLIA.

     Luiz Gonzaga na dedicatória desse livro escreveu: AO RAMALHO NETO, COM UM ABRAÇO DO LUIZ GONZAGA, SÃO PAULO, 20 DE 02 DE 67.
     Na minha coleção de vinil um dos discos que foi mais difícil de encontrar foi o “ABOIOS E VAQUEJADAS”.  Fui presenteado recentemente com essa relíquia pelo cordelista Jurivaldo Alves da Silva, poeta de Feira de Santana.  Não sei se o Jurivaldo havia visto o autógrafo do Rei do Baião na capa do vinil, pois as letras estão quase apagadas. Luiz Gonzaga escreveu:
PARA DR. ARTUR BARROS, OUVIR NA CASA OU NO SÍTIO.
SEU VAQUEIRO
LUIZ GONZAGA
SALVADOR, 19/12/1956

      Guardo esses dois presentes como verdadeiras relíquias em meu acervo. São duas peças raríssimas que não tem preço comercial mais um alto valor sentimental... Duas simples dedicatórias...  Duas eternas lembranças do maior artista nordestino, representante de uma arte, embaixador da cultura do povo sertanejo, o povo nordestino... Luiz Lua Gonzaga, teus rabiscos guardados no cofre do coração, cuja emoção se renova ao toque de uma simples sanfona, instrumento que propaga seu som pelas veredas desse Brasil infindo...


João de Sousa Lima
Historiador e Escritor
Paulo Afonso, 20 de fevereiro de 2014